Danielle por Danda Prado
Danda Prado, feminista, formada em psicologia, escreveu em 1985 o livro “O que é Aborto”, uma obra atemporal, e atualmente preside a Editora Brasiliense. Danda teve um papel importante para história brasileira, no século passado, ao defender os direitos igualitários das mulheres em nossa sociedade.
Para ela, Danielle foi uma criança que teve o suposto "Direito à Vida", mas "foi roubada de seus direitos sociais, cuja responsabilidade recai sobre a sociedade. Talvez seu futuro seja melhor, talvez o sistema de saúde comece a atende-la bem, talvez seus filhos recebam educação e saúde". Em entrevista para Maira Begalli, Danda Prado, comentou sobre os desafios e os entraves que envolvem a questão do aborto no Brasil.
Danda Prado - A questão do direito da mulher para optar entre a maternidade ou a interrupção da gravidez é universal e dela temos referências desde a antiguidade. Cada grupo social seja religioso ou político, tem suas razões. Platão dizia que mulheres de mais de 40 anos deviam ser obrigadas a abortar uma eventual gravidez. Era uma questão demográfica a seu ver. Algumas sociedades selecionavam logo após o parto e os bebês deficientes eram sacrificados para melhorar a qualidade da população; outras, ainda eliminavam somente os bebês de sexo feminino, como, até hoje, constatamos na China. Muitas outras abordagens sociopolíticas fazem parte e caracterizam um sistema patriarcal, não só desse controle da gravidez. Atualmente, mulheres e homens têm direito à vida desde seu nascimento no mundo ocidental, mas infelizmente as mulheres vivem ainda sob a ameaça de estupros, gerando gravidezes não desejadas e os sérios riscos para interrompê-la.
Maira - Segundo o relatório citado anteriormente, detectou-se uma queda entre os anos de 1992 a 2005, das mulheres que procuram ajuda no SUS após realizarem um aborto. Mas, o relatório atribuiu tal fato ao uso do MISOPROSTOL, que não provoca complicações maiores. Porém, as mulheres que o adquirem é de forma ilegal. Ou seja, é um esquema que beneficia um sistema – como o tráfico de drogas. A Senhora acha que existem interesses maiores, envolvidos na não legalização, além das questões religiosas e sociais?
Danda Prado - O mizoprostol, substância semelhante à prostaglandina E1, é um excelente recurso medicamentoso para a promoção do abortamento, mas não é perfeito. Com o mifeprex (RU-486 ou pílula do aborto), o índice de sucesso é cerca de 97% até a 12° semana de gravidez. Nos casos restantes, o abortamento não ocorre ou é incompleto, e nesses casos, a mulher pode apresentar hemorragia severa, necessitando atendimento médico-hospitalar de emergência, por risco de vida. Mas como se constata, os resultados positivos são fantásticos. Portanto, é uma hipocrisia permitir tantas mortes-ano, tantas intervenções desnecessárias, tantas internações e sofrimento humano por falta de disponibilidade dessas medicações à mulher que decide pelo abortamento. As questões religiosas são poderosas, porque fazem os políticos reféns dos votos de seus seguidores. A legalização permitirá à quem optar pelo aborto, o direito de faze-lo na legalidade, com menores riscos à sua saúde, à sua vida. Isso não significa que mulheres que desejam a gravidez tenham que abortar. Estatísticas abundantes demonstram que a legalização não aumenta o número de abortos num país. Recentemente, está se demonstrando que a legalização do aborto diminui, ao longo dos anos, a incidência de criminalidade em pequenas comunidades. Claro está que haverá sempre os fornecedores ilegais de qualquer produto a qualquer preço, nesse sentido iguala-se ao tráfico de drogas, que só terminará quando o Ministério da Saúde liberar a comercialização de produtos sem riscos.
Maira - As clínicas de aborto, localizadas em bairros nobres cobram cerca de R$ 5.000. Porém, não há relatos de proprietários presos. Como a senhora enxerga este fato?
Danda Prado - Dizem as más línguas que o lucro é repartido, mas isso não caberá a mim denunciar.
1 Comment:
Pois é, eu tenho uma amiga da alta classe que fez um aborto e ninguém nunca ficou sabendo. Passou super bem de saúde, claro. Fora isso penso que se um dos impedimentos à aprovação do aborto é a questão religiosa, a opção religiosa de cada um também deveria ser respeitada. Eu por exemplo pertenço a uma ordem que não se opõe ao aborto, porque acredita que o sopro da vida só se dá com a primeira inalação do recém-nascido, embora exista sim uma influência pré-natal da mãe sobre o filho, só que em um nível biológico.
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