Direito a Qual Vida?

Em dezembro de 2006, Danielle arrumou um emprego fixo, em uma academia de ginástica. Seus filhos haviam conseguido vagas em crechês, as coisas seguiam seu rumo."A vida estava boa, não sei porque que é eu fui complicar mais uma vez. Tudo começou em março desse ano, eu estava carente, e vi no meu cunhado que é casado com a irmã do meu falecido, o apoio que precisava".

Danielle pensou que porque tinha uma ferida no útero não iria engravidar. Mas, logo percebeu que estava errada: "Comecei a desconfiar porque minha menstruação atrasou. Mas não queria acreditar, eu tomei muita coisa: Cibalena, chá de canela, pinga, garrafada de babosa, chá de buchinha, mas não perdi. Eu nunca soube que tinha a pílula do dia seguinte, se não tinha tomado. E também sempre me falaram que tomando rémedio ou não engravidava do mesmo jeito, então nunca tomei".

No dia 30 de setembro de 2007, Danielle foi até o Hospital Ipiranga, pois queria ter certeza se estava grávida ou não. " Cheguei lá, fiz o ultrasson e o exame de sangue. Quando soube o resultado fiquei passada, na hora pensei nos meus filhos. Falei mesmo na cara da médica que não poderie ter a criança, que não tinha como cuidar. A médica fingiu que nem ouviu, fez cara feia e continuou a preencher minha ficha. Para eles é crime tirar a criança, mas não é crime não poder dar uma vida boa."

Além da gravidez, Danielle soube que estava com uma infecção de urina fortissíma, que vinha provocando fraqueza e sangramento. Teve que tomar medicamentos e fazer repouso durante 15 dias. A moça que não era registrada, mesmo após 1 ano de trabalho, ainda teve que enfrentar a disconfiança de seus patrões. "Eu passava mal fazia muito tempo, mas eles achavam que eu não queria limpar a academia. Um dia eles falaram pra eu levantar e trabalhar que o mal-estar melhorava. Também falavam que não tinham dinheiro para me registrar, mas a dona da academia colocou silicone no peito, e comprou carro novo. Não entende isso". Por fim, Daniele contou sobre a gravidez, eles entraram em um acordo e demitiram a moça.

Sem opções Danielle e seu cunhado, o pai do bebê, decidiram que iriam abortar o bebê. O moço que engravidou Danielle tem 24 anos, já é pai de dois filhos, e sua esposa esta grávida de 4 meses do terceiro filho. Ou seja, ele será pai de dois bebês, de duas mães distintas. Ele não terminou o ensino fundamental e recebe R$ 850 por mês trabalhando em dois empregos. O rapaz vive o outro lado das ficções "Tropa de Elite", "Falcão-Meninos do Tráfico" e "Cidade de Deus". " O marketing faz esses filmes, quem inventa essas histórias é quem ganha. Mas agente não ganha nada com isso.

O cara ainda reclamou que perdeu dinheiro com a pirataria, ele não sabe o que é perder. Eu posso trabalhar minha vida toda e nunca vou ganhar o que ele ganha. Perder é morrer na vida real com uma 12, que nem um amigo meu morreu. O GOE pode entrar na favela e matar, aí isso não pega nada. Mas parar a gravidez não pode. Essa lei não é lei, é o crime", afirma o moço.

Sem ajuda ou apoio médico, eles venderam seus aparelhos celulares e de DVD para encomendar Citotec (Cloridrato de Mizoprostol) de uma conhecida, que reside no Heliopólis. A "mercadora", vende apenas produtos controlados, e já realizou 6 abortos nela mesma com o mesmo medicamento encomendado por Danielle. No Brasil a fabricação do remédio foi suspensa desde 1998, hoje todos os lotes existentes no país vem da Europa. Indicado para úlceras, o medicamento não tem como finalidade em si o aborto, na verdade ele é contra-indicado em caso de gravidez, pois provoca contrações e induz ao aborto.

O casal pagou R$ 200 nos 4 comprimidos de Citotec, que não provocaram o aborto. Diferente das moças de classe média, Danielle não comprou novamente o remédio, nem procurou uma clínica particular. Devido ao grande número de gestantes, Danielle teve que pagar R$ 40 para fazer a ultrassonografia em uma clínica particular. O bebê não foi afetado. É uma menina, que nascerá no final de maio. Danielle acredita que tudo isso teve um motivo, e não se sente culpada, diz que fez isso justamente porque ama sua filha (é uma menina!), e que não gostaria que sua filha passasse pelas mesmas coisas.

Conhecidentemente, a cadela Schnauzer dos meus tios, que Danielle já foi empregada doméstica também está grávida. Os três filhotes dela irão nascer no final de fevereiro e ela já fez duas ultrassonografias. Cada filhote dessa raça é valorado em R$ 1.500 com pedrigree...

Atualmente Danielle faz faxinas em casas de família, e conta com o dinheiro do aluguel de sua "casa" na Favela do Heliopólis. O pai da criança poderá ajudar com cerca de R$ 50 por mês. A renda da família não ultrapassa R$ 400 mensais.


1 Comment:

Anônimo said...

Pra você ver o que a falta de informação pode fazer... Essa semana conversava com uma senhora que está criando dois netos que a filha deixou pra ela. Comentou comigo que o pai do menino até quer assumir a criança, mas só se for comprovado que é filho dele. Pra minha total surpresa ela vira e diz que o problema é que a FILHA não quer fazer o exame. Explico que quem tem que fazer o exame é o pai... Santo Deus! Dona Valmira vai embora feliz, me agradecendo pela informação.