Ela não é a Paris Hilton
Filha de pai "desconhecido", Danielle foi espancada, queimada, privada de alimentação e mantida amarrada aos pés de uma mesa até 5 anos de idade, por seu padrasto alcoólatra. “Eu era pequena, mas lembro muito bem. Ele não deixava minha mãe nem me dar comida. Só podia comer quando ele saia de casa. Aí minha mãe me dava qualquer coisa, debaixo da mesa que eu ficava amarrada”, conta.
Nadja, sua mãe, tinha 38 anos quando ela nasceu. Teve uma gravidez complicada, trabalhou como empregada doméstica até a véspera do nascimento da menina. Antes de Danielle, Nadja teve outras gestações, mas nunca permitia que elas evoluíssem: "Tinha as parteiras, e agente chamava elas se não quisesse ter a criança, para eles darem um jeito. Eu nunca sabia quando ia ficar grávida, nunca me ensinaram isso". Essa afirmação é uma senhora negra, analfabeta, debilitada, com diversas cicatrizes pelo corpo. São palavras de autoria de uma mulher sofrida, que perdeu seus dentes após tomar uma surra de um ex-namorado há mais de 25 anos atrás.
Nadja conta que além de Danielle teve outro filho, mas que "deu" seu bebê para uma família com "condições melhores" criar. Ela calcula que hoje esse rapaz tenha cerca de 35 anos de idade, mas nunca teve contato com ele. Há 10 anos Nadja se converteu, é membro de uma igreja evangélica. Vai aos cultos quase diariamente, usa saias longas, não corta o cabelo, e não comenta muitos detalhes do passado de sua vida. "Cada de um de nós passa o que deve passar, não vai mudar nada eu falar. O que tem que ser é entre eu e Deus", conclui.
Danielle é uma moça de cabelos longos maltratados, estatura pequena, magra e arcada, que carrega as seqüelas psicológicas e físicas, nada doces de sua infância. Além das várias marcas pelo corpo, causadas por queimaduras e surras, Danielle teve seu desenvolvimento intelectual comprometido, devido à desnutrição. Até hoje ela não consegue memorizar coisas simples, como: quantos dias tem 1 ano, ou quantas semana tem 1 mês. A situação só mudou quando a guarda de Danielle foi judicialmente concedida para um primo, que havia denunciado os maus tratos. “A partir daí minha vida melhorou, mas eu nunca me senti criança. Eu falo pra todo mundo: tenho certeza que eu teria sofrido muito menos se minha mãe tivesse me abortado”.
Na casa de seu primo recebeu tratamento médico e psicológico, foi acolhida pela família. Lá Danielle encontrou um lar simples, mas estruturado. Ganhou três irmãs (hoje a mais nova está com leucemia), uma mãe, e outras coisas que nunca havia recebido. "Eles me disseram que quando me pegaram ficaram assustados, e até o médico falou que eu estava tão desnutrida, tão mal que parecia ter vindo da África. Eu tinha 5 anos e ainda não falava porque não comia. Agradeço por ter tido eles na minha vida. Eles me deram carinho quando precisei, deram bronca quando precisei. Sem eles, com certeza eu já teria morrido".
Danielle prefere não julgar os motivos que levaram sua mãe biológica a chegar em tal situação, e por isso não guarda rancor dela. "Na vida cada um tem seus motivos, todo mundo pode errar. Acho que agente erra porque pensa que aquilo, mesmo que é um absurdo, vai dar certo, que vai fazer agente feliz. Acho que é sempre assim, agente tenta fazer uma coisa pensando que vai sofrer menos, ou que vão gostar mais da gente, é como se agente quisesse ser visto e amado. É pra suprir um vazio, e acho que todo mundo têm esse seu vazio, cada um tem seu vazio".
A moça que escolheu o nome Danielle para ocultar sua identidade, gostaria de ser uma gestante como Danielle Winits (a atriz): bela, com uma marido que a ama, com condições de criar seu filho e com uma mãe (Nadja Winits).
Algumas fontes de extrema importância foram procuradas para comentar sobre o descaso que o Estado trata Danielle ( e outras milhares de brasileiras), ao recrimina-la e incrimina-la, por escolher fazer o aborto. Entre elas: a Ministra (em questão) Nilcéia Freire, que em 2005 pediu a revisão da Legislação sobre o Aborto, e não pode responder as perguntas relacionadas ao tema. Assim como a CBB, que lançará a Campanha da Fraternidade em 2008 relacionada ao tema, mas não consegue articular os fatos de forma humana.
Vale ressaltar que todas as informações publicadas foram autorizadase fornecidas por Danielle.
1 Comment:
Maira querida, que sensibilidade a sua em montar esse blog e estender a mão a essa moça. É duro pensar que como elas existem tantas outras. Particularmente sou a favor do aborto em casos como estupro e também penso que cada mulher deveria ter o direito de escolher o que fazer com seu corpo e sua vida. Também sou a favor de um programa de controle da natalidade. Não é possível que continuemos nesse círculo vicioso onde mulheres e crianças são sacrificadas... divulgarei seu blog no meu mailing feminino.
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