A Segregação é Real
Quando conheci Danielle, em 2002, ela havia acabado de voltar para sua mãe biológica, que agora morava em uma pequena casa no bairro do Ipiranga (bairro em que nasci). Danielle decidiu retornar, pois acreditava que poderia construir uma nova história e superar toda a dor do passado. A residência tinha sido deixada como herança para Danielle, por um ex-patrão de sua mãe, que faleceu em 1998. Danielle suspeita que ele era seu pai, porém sua mãe biológica não admite tal possibilidade. "Não entendo porque uma pessoa deixaria uma casa, se não fosse meu pai".
Na época em que voltou, Danielle tinha 14 anos, cursava a 7º série do ensino fundamental, e trabalhava como empregada doméstica, na casa de meu tio. Certo dia, durante uma festa realizada na casa de meu tio, Danielle me contou sobre sua vida, enquanto lavava louça. Eu, uma garota loira, superprotegida, tão propositalmente privada da realidade do mundo, tive o privilégio de escutá-la.
Percebi, então que a realidade de Danielle só estava escondida estrategicamente aos olhos de muitos. Descobri que a casa em ruínas de Danielle encontrava-se locada a aproximadamente 100 metros do edifício em que reside Domingos Dissei, Vereador da Camâra Municipal de São Paulo, e Vice-Presidente da Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente. Também, encontrei outro político-vizinho, o tucano Alberto Turco Loco, morador de um edifício em que (apenas) a taxa de condomínio equivale a R$ 1.800 mensais - minha avó também mora nesse prédio, que já foi assaltado 3 vezes.
Mas, a casa de Danielle, a materialização da canção infantil " Era uma casa muito engraçada..." não poderia interessar aos homens que administram os valores da pátria.
Passaram-se alguns meses, Danielle conheceu um rapaz e engravidou: “Minha amiga me apresentou para ele lá no Heliopólis. Depois de um mês eu estava grávida, mas antes eu era virgem. Naquela época eu ainda brincava de boneca. E eu não achava que ía ficar grávida assim”. Quando contou sobre a gravidez para seus patrões, na época meus tios, Danielle foi demitida.
Eles consideraram, o fato de seu namorado morar na favela do Heliopólis, algo ameaçador à paz do núcleo familiar. Como pretexto, chegaram a incriminá-la sobre o desaparecimento de um relógio, que minha prima (com 3 anos na época) admitiu ter escondido dias depois.
1 Comment:
Que horror... somos movidos por medo e preoconceito, e só fazemos piorar esse esquemão. Pelo menos existem pessoas como você que não se deixam anestesiar...
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